quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

FELIZ 2009 !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!



Beijo - Virgínia Schall
.
sua boca
uva rubra
roça meus lábios
e por segundos
somos murmúrios úmidos
seiva cósmica
de línguas
púrpuras
..
A todos que me acompanharam em 2008 agradeço de coração e desejo um Novo Ano repleto de alegrias, prosperidade, realizações, amor, paz e saúde!
Que a esperança e o amor permeiem sempre nossos corações!!!
.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A uma passante pós-baudelairiana - Carlito Azevedo



Sobre esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado
sua escrita luminosa
– sem esquecer entanto
a boca: um ícone em rubro
tornando mais fogo
o céu de outubro
.
tornando mais água
a minha sede
sede de dilúvio –
.
Talvez este poeta afogado
nas ondas de algum danúbio imaginário
dissesse que seus olhos são
duas machadinhas de jade
escavando o constelário noturno
(a partir do que comporiaduzentas odes cromáticas)
.
mas eu que venero mais que o ouro-verde raríssimo
o marfim em alta-alvura
de teu andar em desmesura sobre
uma passarela de relâmpagos súbitos
sei que tua pele pálida de papel
pede palavras de luz
.
Algum mozárabe ou andaluz decerto
te dedicaria um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
.
Mas eu te dedico quando passas
me fazendo fremir
.
(entre tantos circunstantes, raptores fugidios)
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios.
.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Soneto de véspera - Vinícius de Moraes

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Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?
.
Que beijo teu de lágrimas terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga mágoa quando
Não puder te dizer por que chorei?
.
Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa
Que a distância criou - fria de vida
.
Imagem tua que eu compus serena
Atenta ao meu apelo e à minha pena
E que quisera nunca mais perdida...
.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Cismar - Manuel Antônio Álvares de Azevedo


Fala-me, anjo de luz! és glorioso
À minha vista na janela à noite,
Como divino alado mensageiro
Ao ebrioso olhar dos froixos olhos
Do homem que se ajoelha para vê-lo,
Quando resvala em preguiçosas nuvens
Ou navega no seio do ar da noite.
Romeu
.
Ai! Quando de noite, sozinha à janela,
Co'a face na mão te vejo ao luar,
Por que, suspirando, tu sonhas donzela?
A noite vai bela,
E a vista desmaia
Ao longe na praia
Do mar!
.
Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos,
Como água da chuva cheiroso jasmim?
Na cisma que anjinho te conta segredos?
Que pálidos medos?
Suave morena,
Acaso tens pena
De mim?
.
Donzela sombria, na brisa não sentes
A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?
E a noite, que inspira no seio dos entes
Os sonhos ardentes,
Não diz-te que a voz
Que fala-te a sós
Sou eu?
.
Acorda! Não durmas da cisma no véu!
Amemos, vivamos, que amor é sonhar!
Um beijo, donzela! Não ouves? No céu
A brisa gemeu...
As vagas murmuram...
As folhas sussurram:
Amar!
.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Natal - Marly de Oliveira


Natal. Nesta província não neva,
mas a chuva anda constante,
e anda tão longe, perdido,
o que a alma busca na treva.
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Que me ficou do ano findo?
Que se pode aprender neste Natal?
A renascer, gritam os sinos,
embora todos saibam que é mortal
aprendizagem essa, sem sossego.
.
Nasce um deus de palha que o cerca
e nos convida a reviver sua paixão,
já não a cada ano, a cada instante
renovada. E o sangue se rebela
e tem vontade de dizer-lhe não.
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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Assim - Mila Ramos


Eu te amo
de um amar antigo
- sabor de antigamente
no velho caderno das lembranças -.
.
Eu te amo assim,
de um amar antigo,
intocado,
abstrato,
indizível,
atemporal.
.
Assim.
.

Por Rubén Darío ...


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Amar, amar, amar siempre y con todo
El ser y con la tierra y con el cielo,
Con lo claro del sol y lo obscuro del todo.
Amar por toda ciencia y amar por todo anhelo.
.
Y cuando la montaña de la vida
Nos sea dura y karga, y alta y llena de abismos,
Amar la immensida, que es de amor encendida,
Y arder en la fusión de nuestros pechos mismos...
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domingo, 21 de dezembro de 2008

Passeio ao campo - Florbela Espanca

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Meu amor! Meu amante! Meu amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!
.
Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina…
Pele doirada de alabastro antigo…
Frágeis mãos de madona florentina…-
Vamos correr e rir por entre o trigo! -
.
Há rendas de gramíneas pelos montes…
Papoilas rubras nos trigais maduros…
Água azulada a cintilar nas fontes…
.
E à volta, Amor… tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras…
.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Por Machado de Assis ...

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"O amor não é mais que um instrumento de escolha; amar é eleger a criatura que há de ser companheira na vida, não é afiançar a perpétua felicidade de duas pessoas, porque essa pode esvair-se ou corromper-se."
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Por Pablo Neruda ...


De noite, amada, amarra teu coração ao meu
e que eles no sonho derrotem
as trevas como um duplo tambor
combatendo no bosque
contra o espesso muro das folhas molhadas.
Noturna travessia, brasa negra do sonho.
Interceptando o fio das uvas terrestres
com pontualidade de um trem descabelado
que sombra e pedras frias sem cessar arrastasse.
Por isso, amor, amarra-me ao movimento puro,
à tenacidade que em teu peito bate.
.
Com as asas de um cisne submergido,
para que as perguntas estreladas do céu
responda nosso sonho com uma só chave,
com uma só porta fechada pela sombra.
.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Minha lira a suspirar - Rita Barém de Melo

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Minha lira a suspirar,
Que dizes nesta canção?
São saudades são amores
Dessa flor - recordação!
.
- Minha lira a suspirar,
Que cantas com tanto ardor?
- Mais prantos do que sorrisos,
Mais tristezas que amor!
.
- Minha lira a suspirar,
Que tanges nesse amargor?
Não tens nas cordas sensíveis
Nem uma singela flor?
.
Lira minha que suspiras,
Não tens na vida (que dor)
Uma voz que fale ardente,
Ardentes falas d'amor?!
.
Lira minha que suspiras,
Como tu meiga quem é?
Mas triste lira não podes
Na ventura teres fé!
.
Lira minha que suspiras,
Na ventura tu não crês?
Mau condão fadou-te, lira,
Tão jovem, por que descrês?...
.
Minha lira a suspirar
Continua já não tens crença,
Na dita quem infiltrou-te
Essa profunda descrença?
.
Minha lira a suspirar
Só tens hinos d'amargor,S
ó cantos de sofrimento,
Endeixas de muita dor!
.
(Março de 1856)
.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Cerejas, meu amor - Renata Pallottini


.
Cerejas, meu amor,
mas no teu corpo.
Que elas te percorram
por redondas.
.
E rolem para onde
possa eu buscá-las
lá onde a vida começa
e onde acaba
.
e onde todas as fomes
se concentram
no vermelho da carne
das cerejas...
.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Pranto para comover Jonathan - Adélia Prado


.
Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.
.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Morrer de Amor - Maria Teresa Horta


.
Morrer de amor
ao pé da tua boca
.
Desfalecer
à pele
do sorriso
.
Sufocar de prazer
com o teu corpo
.
Trocar tudo por ti
se for preciso
.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Soneto a Katherine Mansfield - Vinícius de Moraes

,
O teu perfume, amada — em tuas cartas
Renasce, azul... — são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.
,
Relembro-as, vou... nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.
,
Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto!... e a primavera
Vem já tão próxima! ... (Nunca te apartas
,
Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.
,

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Amor - Olga Savary


,
O que será:
este labirinto de perguntas
e resposta alguma,
este insistente rugir
de pássaros, este abrir
as jaulas, soltar o bicho
novelo que há em nós,
delicado/feroz morder
(deixa sangrar)
o outro bicho (deixa, deixa)
e toda esta parafernália
a parecer truque enquanto
obsidiante você mente
embora acreditando nas mentiras
e eu use os piores estratagemas
para cobrir-me a retirada
desse vicioso campo de batalha.
,

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

DATA ESPECIAL: 1 ANO DO BLOG!!!

,,,,
,,,,, Queridos amigos e leitores!
,,,,,Estou muito feliz pois hoje este meu blog está completando um ano de existência.
,,,,,Posso dizer que o apoio, as contribuições, as sugestões e as críticas de cada um de vocês foram fundamentais para o aperfeiçoamento e para a continuidade deste blog. Sem vocês eu não teria conseguido estar aqui comemorando esta data especial.
,,,,,Sei que não tenho conseguido retribuir todas as visitas carinhosas que tenho recebido, mas na medida do possível deixarei minhas palavras em cada um de seus blogs.
,,,,,Muito obrigada a todos!
,,,,,Aproveito esta oportunidade para manifestar minha gratidão à minha maninha de coração Leonor Cordeiro pela criação do layout e apoio incondicional.
,
,,,,,Beijos primaveris, Renata.
,
,
Seu Nome - Maria Firmina dos Reis
,
Seu nome! em repeti-lo a planta, a erva,
A fonte, a solidão, o mar, a brisa
Meu peito se extasia!
Seu nome é meu alento, é-me deleite;
Seu nome, se o repito, é dúlia nota
De infinda melodia.
,
Seu nome! vejo-o escrito em letras d'ouro
No azul sideral à noite quando
Medito à beira-mar:
E sobre as mansas águas debruçada,
Melancólica, e bela eu vejo a lua,
Na praia a se mirar.
,
Seu nome! é minha glória, é meu porvir,
Minha esperança, e ambição é ele,
Meu sonho, meu amor!
Seu nome afina as cordas de minh'harpa,
Exalta a minha mente, e a embriaga
De poético odor.
,
Seu nome! embora vague esta minha alma
Em páramos desertos, – ou medite
Em bronca solidão:
Seu nome é minha idéia – em vão tentara
Roubar-mo alguém do peito – em vão – repito,
Seu nome é meu condão.
,
Quando baixar benéfico a meu leito,
Esse anjo de deus, pálido, e triste
Amigo derradeiro.
No seu último arcar, no extremo alento,
Há de seu nome pronunciar meus lábios,
Seu nome todo inteiro!...
,

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Por Casimiro de Abreu ...

,
LX
NO LEITO.
,
V.
,
Assim, – se amanhã, se logo,
Sentires na face amada
Passar um sopro de fogo
Que te queime o coração,
E uma mão fria e gelada
Comprimir a tua mão
Frisando os cabelos teus;
– Não tenhas tu vãos temores,
Pois é minh’alma, querida,
Que ao desprender-se da vida
– Toda saudade e amores –
Vai dizer-te o extremo – adeus!...
,
Agosto – 1858.
,

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Acalanto - Ada Ciocci

Vai amado.
Busca por onde quiseres,
com quem quiseres,
como quiseres,
o prazer.
Até mesmo,
aquele prazer que um dia alguém apelidou de amor.
E, se por acaso te cansares e,
do compromisso que um dia nos uniu te lembrares,
se desejares, volta.
Serei a que conforta.
Não saberás da dor,
da saudade,
das lágrimas sentidas que tua ausência causou.
,

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Soneto de Luz e Treva - Vinícius de Moraes

,
Para a minha Gesse, e para que
ilumine sempre a minha noite
,

Ela tem uma graça de pantera
No andar bem-comportado de menina.
No molejo em que vem sempre se espera
Que de repente ela lhe salte em cima.
,
Mas súbito renega a bela e a fera
Prende o cabelo, vai para a cozinha
E de um ovo estrelado na panela
Ela com clara e gema faz o dia.
,
Ela é de capricórnio, eu sou de libra
Eu sou o Oxalá velho, ela é Inhansã
A mim me enerva o ardor com que ela vibra
,
E que a motiva desde de manhã.
– Como é que pode, digo-me com espanto
A luz e a treva se quererem tanto...
,
Itapuã, 08.12.1971

,

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Por Pablo Neruda ...

,
"Quero apenas cinco coisas...
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos
Não quero ser... sem que me olhes
Abro mão da primavera para que
continues me olhando."
,,

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Teu Olhar... - Rosângela do Valle Dias



Refletidas as luzes, sem borrões,
num mundaréu de solidões,
enxerguei o teu olhar a me fitar,
doce, amoroso, puro, luzente...
Verdadeiros brilhantes
escondidos pelo desejo
que agora,
pelas minhas sombras,
são escancarados de amor.
,
,

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O Sempre Amor - Adélia Prado


Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele falo palavras como lanças.
Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é coisa que mais quero.
Por causa dele podem entalhar-me,
Sou de pedra sabão.
Alegre ou triste,
amor é coisa que mais quero.
,

sábado, 29 de novembro de 2008

Amor Proibido - Detlev von Liliencron



Erma e árida a noite,
Árvores desfolhadas
Tua cabeça em meu ombro
Pousa aflita e pesada.
.
Ronda a raposa os campos,
Longe o inimigo a essa hora;
Astros alheios brilham.
Teus belos olhos choram.
.
Quebras um galho seco,
Vagamente, e me dás
Ambas as mãos - e não
Nos vimos nunca mais.
.
Trad. Geir Campos
.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A Mulher Apaixonada - Arthur da Távola


,
É um ser em estado de torcida do Flamengo. Torce mais por ele (o amado) que pela Seleção. Entra no campo, agride o juiz, salta o alambrado, topa qualquer desafio. Só vê a vitória
.

Vai pro exílio, larga carreira, profissão, conveniência, partido político. Só tem um caminho e uma verdade: o amor. O resto virá depois. Sem ele, o tudo é nada.

É o mais paciente dos seres impacientes. Sempre em estado de “estou pronta”, leva anos esperando com uma insuportável e maravilhosa impaciência, exigência, dedicação, entrega, cegueira, vontade de quintais, praias e amarrações que supõe perfeitas e definitivas. Ninguém vive a provisoriedade com tanto sentido de permanência. Ninguém assina em branco e antecipa tantos avais de afeto. Ninguém erra com tanta convicção e decência.

É fera e santa; guerreira e gato; desastrada e genial, capaz de usar fitas, meias coloridas; de enfrentar solidões, distâncias, presenças e furacões pelo ser amado.

É o mais regular dos seres irregulares porque não julga, não pensa, não avalia: sente. E que se danem o mundo, as regras, as regulações, disposições, legislações e tudo aquilo que a mãe ensinou! Que o mundo exploda em flores!

Ser de grandezas, só vive de migalhas.

Entende de lençóis iluminados pela luz do corredor nas noites sem sono; conhece ruídos diferentes de tique-taques e entende de cantores e poetas (escolhidos secretamente).

Interpreta as mensagens mais sutis do amado: tom de voz; espaço entre uma e outra frase; fomes dominicais; impressões vagas de cansaço, tédio, alegria ou saudade expressas por fungados, suspiros, desabafos, interjeições, gestos, sons, olhares.

Mistura disposição com vontade. Possibilidade com ânsia. Dificuldade com não querer. Em suma: é o mais incapaz dos capazes do que há de melhor, mais lindo, legítimo e verdadeiro.

Especialista em pretextos; modista de oportunidades; navegantes de esperanças; tecelã de ternuras; doceira de amarguras.

É furacão e chuvisco; exaltação e placidez; adivinhação e alienação; sábia e patusca; maravilha e susto; mãe e mulher; filha e bruxa; santa e desastrada.

O único ser que topa qualquer parada não é o herói, o desesperado ou o valente: é a mulher apaixonada.
,

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Esfinge - Teófilo Dias

Tuas pupilas alaga
Não sei que acerba ternura,
Cuja luz cruel me afaga,
Cujo afago me tortura.
,
Unge-te o seio moreno
Um perfume sufocante,
Suave como um calmante,
Pérfido como um veneno.
,
Freme-te a alma fatal
No frágil corpo nervoso,
Como um filtro perigoso
Numa prisão de cristal.
+
Para estancar os desejos,
Que teu sangue tantalizam,
Teus lábios prodigalizam
Dentadas por entre beijos.
,
Com sarcasmo me apunhalas;
Depois, as feridas cruas
Ameigas com a luz que exalas
Dos teus olhos, - negras luas.
,
Tua palavra me é dura
Às vezes, pelo sentido,
E doce pela brandura
Com que me trina no ouvido.
,
Há uma alma que suspira
Em cada ponto do espaço
Quando caminhas: teu passo
Murmura como uma lira.
,
No movimento discreto
Revelas, por entre gazes,
Todo um poema correto
Escrito em versos sem frases.
,
Os teus lençois apaixonas
Com a gentileza que apuras
Nas langorosas posturas
Em que o teu corpo abandonas.
,
Dos primores, de que és feita,
A nenhum dou primazia:
É do conjunto a harmonia
Que os meus sentidos sujeita.
,
E eu te amo, beleza fátua,
Minha perpétua loucura,
Como o verme a flor mais pura,
E o musgo a mais bela estátua!
,

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O Engano - Alfonsina Storni


Sou tua, Deus sabe porque, já que compreendo
Que haverás de abandonar-me, friamente, amanhã,
E que embaixo dos meus olhos, te encanto
Outro encanto o desejo, porém não me defendo.
,
Espero que isto um dia qualquer se conclua,
Pois intuo, ao instante, o que pensas ou queiras
Com voz indiferente te falo de outras mulheres
E até ensaio o elogio de alguma que foi tua.
,
Porém tu sabes menos do que eu, e algo orgulhoso
De que te pertence, em teu jogo enganoso
Persistes, com ar de ator dono do papel.
,
Eu te olho calada com meu doce sorriso,
E quando te entusiasmas, penso: não tenhas pressa
Não es tu o que me engana, quem me
engana é meu sonho.
,
Tradução de Maria Teresa Almeida Pina
,

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Lúbrica - Cesário Verde



Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás-de por mim morrer,
Morrer muito contente.
*
Lançaste no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um painel
De cenas de rapazes!
*
Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!
*
Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:
*
Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.
*
Teus olhos sensuais,
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.
*
As grandes comoções
Tu neles sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas
*
-Teus olhos imorais,
Mulher que me dissecas,
Teus olhos dizem mais
Que muitas bibliotecas!
*

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Os Castelos de Amor Que Nós Sonhamos - Helena Raposo Carneiro da Cunha



Não sei, Amor, se ainda bem me queres.
Se ainda sou teu lírio perfumado!
— Vem. Fala. Dizes tu o que quiseres.
Vamos lembrar o tempo já passado.
,
Com o teu silêncio a minha alma feres.
Meu coração soluça amargurado,
Pensando que talvez outras mulheres
Tenham de mim o teu amor roubado.
,
Lembra, querido, o nosso amor sedento,
Na caminhada de um passado lento,
Quantas juras de amor nós dois juramos!
,
Quero ver-te formoso como sempre!
Nossas mentes unidas muito lembre
Os castelos de amor que nós sonhamos.
,

sábado, 22 de novembro de 2008

Prece - Amélia de Oliveira

,
Não te peço a ventura desejada,
Nem os sonhos que outrora tu me deste,
Nem a santa alegria que puseste
Nessa doce esperança, já passada.
,
O futuro de amor que prometeste
Não te peço! Minha alma angustiada
Já te não pede, do impossível, nada
Já te não lembra aquilo que esqueceste!
,
Nesta mágoa sorvida, ocultamente,
Nesta saudade atroz que me deixaste,
Neste pranto, que choro ainda por ti,
,
Nada te peço! Nada! Tão-somente
Peço-te agora a paz que me roubaste,
Peço-te agora a vida que perdi!
,

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Serenata - Cecília Meireles

,
,
Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora
e cantando pus-me a esperar-te.,
,
Permita que eu emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silêncio,
e a dor é de origem divina.
,
Permita que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.
,

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Alvorada Eterna - J. G. de Araújo Jorge



Quando formos os dois já bem velhinhos,
já bem cansados, trôpegos, vencidos,
um ao outro apoiados, nos caminhos,
depois de tantos sonhos percorridos...
.
Quando formos os dois já bem velhinhos
a lembrar tempos idos e vividos,
sem mais nada colher, nem mesmo espinhos
nos gestos desfolhados e pendidos...
.
Quando formos só os dois, já bem velhinhos,
lá onde findam todos os caminhos
e onde a saudade, o chão, de folhas junca...
.
Olha amor, os meus olhos, bem no fundo,
e hás de ver que este amor em que me inundo
é uma alvorada que não morre nunca!
.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Estilhaço - Filemon Félix de Morais

.
.
Há uma ferida
acesa
em cada
coração que ama
quando o
estilhaço da
saudade
rompe o silêncio
da paixão
absoluta
.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Se Tu me Esqueces - Pablo Neruda



Quero que saibas uma coisa.
Tu já sabes o que é:
Se olho a lua de cristal,
o ramo rubro do lento outono em minha janela,
se toco junto ao fogo a implacável cinza
ou o enrugado corpo da madeira,
tudo me leva a ti, como se tudo o que existe,
aromas, luz , metais, fossem pequenos barcos
que navegam para estas tuas ilhas que me aguardam.
Pois, ora, se pouco a pouco deixas de me amar,
de te amar, pouco a pouco, deixarei.
Se de repente me esqueces, não me procures,
já te esqueci também.
Se consideras longe e louco o vento de bandeiras
que canta minha vida e te decides a me deixar
na margem do coração no qual tenho raízes,
pensa que nesse dia a essa hora
levantarei os braços me nascerão
raízes procurando outra terra.
Porém, se cada dia,cada hora,
sentes que a mim estás destinada
com doçura implacável,
se cada dia se ergue uma flor
a teus lábios me buscando, ai,
amor meu, ai minha, em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
do teu amor, amada, o meu se nutre,
e enquanto vivas estará em teus braços e sem sair.
.

sábado, 8 de novembro de 2008

Por Paul Verlaine ...

,
Debrucei me esta noite sobre o teu sono.
Dormia o corpo casto sobre o lençol
E vi, como alguém que lesse, estudioso,
Ah! vi que tudo é vão sob a luz do sol!
Estarmos vivos, ó que rara maravilha,
Como o nosso organismo é flor que se dobra!
Ó pensamento que levas ao delírio!
Dorme, vá!
Quanto a mim,este assombro acorda me,
Ah, desgraça de te amar, frágil amante;
Respiras como se respira um instante!
Ó olhar fechado que à morte é igual!
Ó boca a rir em sonhos na minha boca,
À espera de outra gargalhada mais louca!
Depressa, acorda.
Ouve, a alma é imortal!
.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

HOJE É DIA DE CECÍLIA! BLOGAGEM COLETIVA


Romantismo - Cecília Mereles
.
.
Quem tivesse um amor, nesta noite de lua,

para pensar um belo pensamento
e pousá-lo no vento!...
Quem tivesse um amor - longe, certo e impossível
-para se ver chorando, e gostar de chorar,
e adormecer de lágrimas e luar!
Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas,
partisse por nuvens, dormente e acordado,
levitando apenas, pelo amor levado...
Quem tivesse um amor, sem dúvida nem mácula,
sem antes nem depois: verdade e alegoria...
Ah! Quem tivesse...(Mas quem tem? Quem teria?)
.
Blogagem coletiva sugerida pela querida amiga Leonor Cordeiro (http://leonorcordeiro.blogspot.com) para homenagear Cecília Meireles no dia de seu nascimento.
.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Saudade - Lau Siqueira



meu corpo
t’espera

minh’alma
t’espera

só o coração
d
e
s
’espera
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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Miragem - Helena Kolody


Meu amor por você foi só reflexo

Duma ternura imensa represada.

De coração ingênuo e alma apaixonada,

Fiz do meu próprio sonho um fantasma de amor.

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terça-feira, 4 de novembro de 2008

Aconteceu - Rosângela do Valle Dias




O amor arrebatou-me
com apenas um olhar!
Minh'alma, com um sorriso,
pediu calma,
para um toque conciso.
O meu coração quer,
agora,
fundir com o seu e viver,
diuturnamente,
o maior amor que já viveu.

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sábado, 1 de novembro de 2008

A Brusca Poesia da Mulher Amada - Vinícius de Moraes



Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de
............................................[sede lentamente...
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh,
...............................[a mulher amada é como a fonte!
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A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando
..........................................................[no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?
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Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou
............................................[a face pálida dos lírios
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos
.............................[finas e rostos transfigurados...
Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante
............................................................[das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.
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sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Roseira Brava - Florbela Espanca



Há nos teus olhos de oiro um tal fulgor
E no teu riso tanta claridade,
Que o lembrar-me de ti é ter saudade
Duma roseira brava toda em flor.
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Tuas mãos foram feitas para a dor,
Para os gestos de doçura e piedade;
E os teus beijos de sonho e de ansiedade
São como a alma a arder do próprio amor!
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Nasci envolta em trajes de mendiga;
E, ao dares-me o teu amor de maravilha,
Deste-me o manto de oiro de rainha!
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Tua irmã... teu amor... e tua amiga...

E também - toda em flor - a tua filha,
Minha roseira brava que é só minha!...
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quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A Imortalidade do Amor - Davi Cartes Alves


Tua boca
tem sopro doce de luar
mas em minha alma
conjuga em chamas
o verbo amar
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teu beijo
tem o mel da imortalidade
deixa a alma sublevar
entre sensações
da tenra idade
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teu corpo
és bojo macio de tulipa
a recender magnólias
torna em luminoso paraíso,
meu taciturno mausoléu
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Fez me sentir-se Hermes
altaneiro, a levar recados
entre a terra e o céu.
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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Catarina a Camões - Elizabeth Barret Browning


Catarina a Camões
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I
P'ra a porta onde não surges nem me vês
Há muito tempo que olho já em vão.
A esperança retira o seu talvez;
Aproxima-se a morte, mas tu não.
Amor, vem
Fechar bem
Estes olhos de que dissestes ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos.
II
Quando te ouvi cantar esse bordão
Nos meus de primavera alegres dias;
Todo alheio louvar tendo por vão
Só dava ouvidos ao que tu dizias
– Dentro em mim
Dizendo assim:
"Ditosos olhos de que disse ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos."
III
Mas tudo muda. Nesta tarde fria
O sol bate na porta sem calor.
Se estivesse aí murmuraria
Como dantes tua voz – "amo-te, amor";
A morte chega
E já cega
Os olhos que ontem eram teus desvelo
O lindo ser dos vossos olhos belos.
IV
Sim. Creio que se a vê-los te encontrasses
Agora, ao pé do leito em que me fino,
Ainda que a beleza lhes negasses,
Só pelo amor que neles eu defino
Com verdade
E ansiedade
Repetirias, meu amor, ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos.
V
E se neles pusesse teu olhar
E eles pusessem seu olhar no teu,
Toda a luz que começa a lhes faltar
Voltaria de pronto ao lugar seu.
Com verdade
E ansiedade
Dir-se-ia como tu disseste ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos.
VI
Mas – ai de mim! – tu não me vês senão
Nos pensamentos teus de amante ausente,
E sorrindo talvez, sonhando em vão,
Trás o abanar do leque levemente;
E, sem pensar,
Em teu sonhar
Iras talvez dizendo sempre ao vê-los:
O lindo ser dos vossos olhos belos,
VII
Enquanto o meu espírito se debruça
Do meu pálido corpo sucumbido,
Ansioso de saber que falas usa
Teu amor p'ra meu espírito ferido,
Poeta, vemMostrar bem
Que amor trazem aos olhos teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.
VIII
Ó meu poeta, ó meu profeta, quando
Destes olhos louvaste o lindo ser,
Pensaste acaso, enquanto ias cantando,
Que isso já estava prestes de morrer?
Seus olhares
Deram-te ares
De que breve podias não mais vê-los,
O lindo ser dos vossos olhos belos.
IX
Ninguém responde.
Só suave, defronte,
No pátio a fonte canta em solidão,
E como água no mármore da fonte,
Do amor p'ra a morte cai meu coração.
E é da sorte
Que seja a morte
E não o amor, que ganhe os teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos!
X
E tu nunca virás?
Quando eu me for
Onde as doçuras estão escondidas,
E onde a tua voz, ó meu amor,
Não me abrirá as pálpebras descidas,
Dize, amo meu,"O amor, morreu!"
Sob o cipreste chora os teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.
XI
Quando o angelus toca à oração,
Não passarás ao pé deste convento,
Lembrando-te, a chorar, do cantochão
Que anjos nos traziam do firmamento?
No ardor meu
Eu via o céu
E tu: "O mundo é vil, ó meus desvelos,
Ao lindo ser dos vossos olhos belos?"
XII
Devagar quando, do palácio ao pé,
Cavalgares, como antes, suave e rente,
E ali vires um rosto que não é
O que vias ali antigamente,
Dirás talvez
"Tanta vez
Me esperaste aqui, ó meus desvelos
Ó lindo ser dos vossos olhos belos!"
XIII
Quando as damas da corte, arfando os peitos,
Te disserem, olhando o gesto teu,
"Canta-nos, poeta, aqueles versos feitos
Àquela linda dama que morreu",
Tremerás?
Calar-te-ás?
Ou cantarás, chorando, os teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos?
XIV
"Lindo ser de olhos belos!" Suaves frases
E deliciosas quando eu as repito!
Cem poesias outras que cantasses,
Sempre nesta a melhor terias dito.
Sinto-a calma
Entre a minha alma
E os rumores da terra ? pesadelos:
– O lindo ser dos vossos olhos belos.
XV
Mas reza o padre junto à minha face,
E o coro está de joelhos todo em prece,
E é forçoso que a alma minha passe
Entre cantos de dor, e não como esse.
MiserereP'los que fere
O mundo, e p'ra Natércia, os teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.
XVI
Guarda esta fita que te mando
(Tirei-a dos cabelos para ti).
Sentir-te-ás, quando o teu choro arda,
Acompanhado na tua dor por mi;
Pois com pura
Alma imperjura
Sempre do céu te olharão teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.
XVII
Mas agora, esta terra inda os prendendo,
Desses olhos o brilho é inda alado...
Amor, tu poderás encher, querendo,
Teu futuro de todo o meu passado,
E tornar
A cantar
A outra dama ideal dos teus desvelos:
O lindo ser dos vossos olhos belos.
XVIII
Mas que fazeis, meus olhos, ó perjuros!
Perjuros ao louvor que ele vos deu,
Se esta hora mesmo vos não mostrais puros
De lágrima que acaso vos encheu?
Será forte
Choro ou morte
Se indignos os tornar de teus desvelos
– O lindo ser dos vossos olhos belos.
XIX
Seu futuro encherá meu 'spírito alado
No céu, e abençoá-lo-ei dos céus.
Se ele vier a ser enamorado
De olhos mais belos do que os olhos meus,
O céu os proteja,
Suave lhes seja
E possa ele dizer, sincero, ao vê-los.
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