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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Amor de fixação - Manuel Alegre



"A experiência é madre das coisas e por ela soubemos radicalmente
a verdade". (Duarte Pacheco Pereira, "Esmeraldo")


Há um caminho marítimo no meu gostar de ti.

Há um porto por achar no verbo amar

há um demandar um longe que é aqui.

E o meu gostar de ti é este mar.
.

Há um Duarte Pacheco em eu gostar

de ti. Há um saber pela experiência

o que em muitos é só um efabular.
Que de naugrágios é feita esta ciência
.
que é eu gostar de ti como um buscar
as índias que afinal eram aqui.
Ai terras de Aquém-Mar (a-quem-amar)
.

naus a voltar no meu gostar de ti:
levai-me ao velho pinho do meu lar
eu o vi longe e nele me perdi.
.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Coisa Amar - Manuel Alegre



Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
.
Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.
.
Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te logamente como doi
.
desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Coração Polar - Manuel Alegre


Não sei de que cor são os navios

quando naufragam no meio dos teus braços

sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar

e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial

a tua promessa nos mastros de todos os veleiros

a ilha perfumada das tuas pernas

o teu ventre de conchas e corais

a gruta onde me esperas

com teus lábios de espuma e de salsugem

os teus naufrágios

e a grande equação do vento e da viagem

onde o acaso floresce com seus espelhos

seus indícios de rosa e descoberta.

Não sei de que cor é essa linha

onde se cruza a lua e a mastreação

mas sei que em cada rua há uma esquina

uma abertura entre a rotina e a maravilha.

há uma hora de fogo para o azul

a hora em que te encontro e não te encontro

há um ângulo ao contrário

uma geometria mágica onde tudo pode ser possível

há um mar imaginário aberto em cada página

não me venham dizer que nunca mais

as rotas nascem do desejo

e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos

quero o teu nome escrito nas marés

nesta cidade onde no sítio mais absurdo

num sentido proibido ou num semáforo

todos os poentes me dizem quem tu és.