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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Poema quase persa - Marina Colasanti



.
Vem, amado,
segura minhas ancas nas tuas mãos
enquanto as minhas
domam teus joelhos.
Vem,
abre na minha testa
uma estrada de estrelas
e como um sol nascente de verão
aquece
folha a folha
os meus rosais.
.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Fanatismo- Florbela Espanca



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Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
.
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
.
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa...”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
.
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...”
.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O teu mistério - David Mourão-Ferreira



O teu mistério
decifrei-o
numa pupila cega:
fechado e aberto
como um seio
que pela noite
se me entrega.
A luz, se vinha,
não descia
do coração
nem dos sentidos:
mas concentrava
a extática alegria
de nos sentirmos
confundidos.
.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A Nuvem - Teófilo Dias



Sulcas o ar de um rastro perfumoso
Que os nervos me alvoroça e tantaliza,
Quando o teu corpo musical desliza
Ao hino do teu passo harmonioso.
.
A pressão do teu lábio saboroso
Verte-me na alma um vinho que eletriza,
Que os músculos me embebe, e os nectariza,
E afrouxa-os, num delíquio langoroso.
.
E quando junto a mim passas, criança,
Revolta a crespa, luxuosa trança,
Na espádua arfando em túrbidos negrumes,
.
Naufraga-me a razão em sombra densa,
Como se houvera sobre mim suspensa
Uma nuvem de cálidos perfumes!
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terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A uma passante pós-baudelairiana - Carlito Azevedo



Sobre esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado
sua escrita luminosa
– sem esquecer entanto
a boca: um ícone em rubro
tornando mais fogo
o céu de outubro
.
tornando mais água
a minha sede
sede de dilúvio –
.
Talvez este poeta afogado
nas ondas de algum danúbio imaginário
dissesse que seus olhos são
duas machadinhas de jade
escavando o constelário noturno
(a partir do que comporiaduzentas odes cromáticas)
.
mas eu que venero mais que o ouro-verde raríssimo
o marfim em alta-alvura
de teu andar em desmesura sobre
uma passarela de relâmpagos súbitos
sei que tua pele pálida de papel
pede palavras de luz
.
Algum mozárabe ou andaluz decerto
te dedicaria um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
.
Mas eu te dedico quando passas
me fazendo fremir
.
(entre tantos circunstantes, raptores fugidios)
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios.
.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Soneto a Katherine Mansfield - Vinícius de Moraes

,
O teu perfume, amada — em tuas cartas
Renasce, azul... — são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.
,
Relembro-as, vou... nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.
,
Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto!... e a primavera
Vem já tão próxima! ... (Nunca te apartas
,
Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.
,