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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Ame e dê vexame - Roberto Freire


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Você ama aquela petulante! Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu. Você deu flores que ela deixou a seco. Você levou para conhecer a sua mãe e ela foi de blusa transparente. Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina o Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam.
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Então? Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
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Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai ligar e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário, ele escuta Egberto Gismonti e Sivuca. Ele não emplaca uma semana nos empregos, esta sempre duro, e é meio galinha.
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Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado, e ainda assim você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita de boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?
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Não pergunte pra mim. Você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes de Woody Allen, dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem o seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettuccine ao pesto é imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desses, criatura, por que diabo está sem um amor?
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Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação de matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
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Não funciona assim. Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem. Caso contrário os honestos, simpáticos e não-fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece a razão.
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O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Costuma ser despertado mais pelas flechas do cupido que por uma ficha limpa.
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Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referências. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá , ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC.
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Ama-se justamente pelo que o amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos tem as pencas, bons motoristas e bons pais de família, mas mesmo assim, ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é.
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terça-feira, 2 de junho de 2009

Súplica - Florbela Espanca

Olha pra mim, amor, olha pra mim;

Meus olhos andam doidos por te olhar!

Cega-me com o brilho de teus olhos

Que cega ando eu há muito por te amar.

O meu colo é arrninho imaculado

Duma brancura casta que entontece;

Tua linda cabeça loira e bela

Deita em meu colo, deita e adormece!

Tenho um manto real de negras trevas

Feito de fios brilhantes d`astros belos

Pisa o manto real de negras trevas

Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos!

Os meus braços são brancos como o linho

Quando os cerro de leve, docemente...

Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te

Nessa cadeia assim etemamente! ...

Vem para mim,amor...Ai não desprezes

A minha adoração de escrava louca!

Só te peço que deixes exalar

Meu último suspiro na tua boca!...

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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Como uma flor vermelha, a abrir - Maria Teresa M. Carrilho




Na noite pálida
e na madrugada
anunciada
sobressais tu,
meu amor
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O riso e as lágrimas
envolventes
misturam-se
em catadupas quentes
e no meio do riso cheioi
nsolente até,
sobressais tu,
meu amor
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Apologia, para quê?
tudo está concentrado
vivido
consumado
por causa de ti
e em ti,
meu amor
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Contigo
o leito do rio distancia-se
e no meio
sobressais tu
no teu esplendor
como uma flor
plena e vermelha
a abrir...
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Olmo - Sylvia Plath



Sei o que há no fundo, ela diz.
Conheço com minha própria raiz.
Era o que você temia.Eu não: já estive lá.
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É o mar que você ouve em mim,
Suas frustrações?
Ou a voz do vazio, essa é a sua loucura?
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O amor é uma sombra.
Como você chora e mente por ele.
Ouça: estes são seus cascos; fugiram, como cavalos.
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Vou galopar a noite inteira
Até que sua cabeça vire pedra, seu travesseiro vire turfa,
Ecoando, ecoando.
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Ou devo te trazer o borbulhar das poções?
Isso agora é chuva, esse silêncio imenso.
E este é seu fruto: branco-metálico, como arsênico.
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Sofri a atrocidade dos poentes.
Queimada até as raízes
Meus filamentos ardem e ficam, emaranhado de arames.
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Meus estilhaços se espalham em centelhas.
Um vento violento assim
Não suporta obstáculos: preciso gritar.
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A lua, também, não tem pena de mim: me engole,
Cruel e estérilSeus raios me arruínam.
Ou quem sabe a peguei.
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Eu a deixo fugir, fugir
Magra e minguante, como depois de uma cirurgia radical.
Seus pesadelos me enfeitam e me possuem.
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Dentro de mim mora um grito.
De noite ele sai com suas garras, à caça
De algo para amar.
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Sou torturada por essa coisa negra
Que dorme em mim;
O dia inteiro sinto seu roçar leve e macio, sua maldade.
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Nuvens passam e se dissipam.
São estas as faces do amor, pálidas, irrecuperáveis?
Foi pra isso que atormentei meu coração?
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Não consigo compreender além.
E o que é isso agora, essa cara
Assassina com seus galhos sufocantes? -
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O beijo traiçoeiro da serpente.
Petrifica o desejo. Esses são os erros, solitários e lentos,
Que matam, matam, matam.
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quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Natal - Marly de Oliveira


Natal. Nesta província não neva,
mas a chuva anda constante,
e anda tão longe, perdido,
o que a alma busca na treva.
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Que me ficou do ano findo?
Que se pode aprender neste Natal?
A renascer, gritam os sinos,
embora todos saibam que é mortal
aprendizagem essa, sem sossego.
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Nasce um deus de palha que o cerca
e nos convida a reviver sua paixão,
já não a cada ano, a cada instante
renovada. E o sangue se rebela
e tem vontade de dizer-lhe não.
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