sábado, 10 de janeiro de 2009

Amor - pois que é palavra essencial - Carlos Drummond de Andrade



Amor - pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.
Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro gritode orgasmo,
num instante de infinito?
O corpo noutro corpo entrelaçado, fundido,
dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.
Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?
Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.
Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.
E prossegue e se espraia de tal sorteq
ue, além de nós, além da prórpia vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.
E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o climax:
é quando o amor morre de amor, divino.
Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.
Então a paz se instaura.
A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.
.

2 comentários:

UMA PAGINA PARA DOIS disse...

Belíssimo poema!
Que você tenha uma ótima semana.
Abraços

Manuel Marques disse...

Amor é fogo e sabe bem senti-lo assim, vendo, cheirando, possuindo, sentindo.

Camões que me perdoe mas amor também é fogo que consome à vista e que qual Fénix renascida volta de novo e de novo recomeça tudo.

E é bom que seja com ardor, total sem ser paranormal, porque urge tê-lo, senti-lo e não ser apenas «fogo que arde sem se ver», utopia ou platónico...

Beijinhos!