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terça-feira, 29 de abril de 2008

Fragmento XX de Via Láctea - Olavo Bilac



Olha-me! O teu olhar sereno e brando
Entra-me o peito, como um largo rio
De ondas de ouro e de luz, límpido, entrando
O ermo de um bosque tenebroso e frio.

Fala-me! Em grupos doudejantes, quando
Falas, por noites cálidas de estio,
As estrelas acendem-se, radiando,
Altas, semeadas pelo céu sombrio.

Olha-me assim! Fala-me assim! De pranto
Agora, agora de ternura cheia,
Abre em chispas de fogo essa pupila...

E enquanto eu ardo em sua luz, enquanto
Em seu fulgor me abraso, uma sereia
Soluce e cante nessa voz tranqüila!

.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Um Beijo - Olavo Bilac


Foste o beijo melhor da minha vida,

ou talvez o pior...Glória e tormento,

contigo à luz subi do firmamento,

contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:

queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,

e do teu gosto amargo me alimento,

e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,

batismo e extrema-unção, naquele instante

por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,

beijo divino! e anseio delirante,

na perpétua saudade de um minuto.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Criação - Olavo Bilac


Há no amor um momento de grandeza,

que é de inconsciência e de êxtase bendito:

os dois corpos são toda a Natureza,

as duas almas são todo o Infinito.

É um mistério de força e de surpresa!

Estala o coração da terra aflito;

rasga-se em luz fecunda a esfera acesa,

e de todos os astros rompe um grito.

Deus transmite o seu hálito aos amantes:

cada beijo é sanção dos Sete Dias,

e a Gênese fulgura em cada abraço,

Porque, entre as duas bocas soluçantes,

rola todo o Universo, em harmonias

e em florificações, enchendo o espaço!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

A voz do amor - Olavo Bilac


Nessa pupila rútila e molhada,

Refúgio arcano e sacro da Ternura,

A ampla noite do gozo e da loucura

Se desenrola, quente e embalsamada.


E quando a ansiosa vista desvairada

Embebo às vezes nessa noite escura,

Dela rompe uma voz, que, entrecortada

De soluços e cânticos, murmura...


É a voz do Amor, que, em teu olhar falando,

Num concerto de súplicas e gritos

Conta a história de todos os amores;


E vêm por ela, rindo e blasfemando,

Almas serenas, corações aflitos,

Tempestades de lágrimas e flores...