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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Pelo telefone - Gilka Machado


Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás;
amo-te pelo enigma pertinaz
que em ti me atrai e me intimida,
por essa música mendaz
de tua voz
que alvoroçou minha audição
e me vem desviando a vida
de seu destino de solidão.
.
Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás...
Fala-me sempre,
mente mais;
não te posso exprimir o pavor que me invade,
as aflições que me consomem,
ao meditar na triste realidade
de que deve ser feita
essa tua alma de homem.
.
Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás,
audaz
desconhecido;
tua palavra mente ao meu ouvido,
mas não mente essa voz que me treslouca!
— Ela é o amor que me chama por tua boca,
num apelo tristonho,
de saudade;
é a exortação do sonho
à minha rara sensibilidade.
.
Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás:
amo a ilusão que tua voz me traz
a falsidade em que procuro crer.
.
Fala-me sempre, mente mais,
que de mim só mereces tanto apreço,
ó nebuloso, porque desconheço
as humanas misérias de teu ser!
.
Mas nesta solidão a que me imponho,
quando quedo em silêncio
a te aguardar a voz,
como se torna teu enigma atroz,
que ânsia de estrangular este formoso sonho,
de transpor os espaços,
de bem te conhecer,
de me atirar depressa,
inteira,
nos teus braços,
de te possuir só para te esquecer!...
.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Fecundação - Gilka Machado




Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente...
de dentro deles teu amor me espia.
.
Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura
.
Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.
.
Nada me dizes,
orém entra-me a carne a persuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.
.
Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.
.
Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.
.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Emotividade da Cor - Gilka Machado


Sete cores — sete notas erradias,


sete notas da música do olhar,


sete notas de etéreas melodias,


de sons encantadores


que se compõem entre si,


formando outras tantas cores,


do cinzento que cisma ao jade que sorri.
.
Há momentos


em que a cor nos modifica os sentimentos,


ora fazendo bem, ora fazendo mal;


em tons calmos ou violentos,


a cor é sempre comunicativa,


amortece, reaviva,tal a sua expressão emocional.
.
Lançai olhares investigadores


para a mancha dos poentes:


há cores que são ecos de outras cores,


cores sem vibrações, cores esfalecentes,


melodias que o olhar somente escuta,


na quietude absoluta,


ao Sol se pôr...


Quem há que inda não tenha percebido


o subjetivo ruídoda harmonia da cor?
.
(...)
.
— A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar.


Cor é soluço, cor é gargalhada,


cor é lamento, é suspiro,


e grito de alma desesperada!


Muitas vezes a cor ao som prefiro


porque a minha emoção é igual à sua:


— parada, estatelada


dizendo tudo, sem que diga nada,


no prazer ou na dor.
.
Olhar a cor


é ouvi-la,


numa expressão tranquila,falar de todas as sensações


caladas, dos corações;


no entanto, a cor tem brados,


mas brados estrangulados,


mágoas contidas,


mudo querer,


ânsia, fervor, emotividade


de desconhecidas


vidas,


que se ficaram na vontade,


que não conseguiram ser...
.
Cores são vagas, sugestivas toadas...


Cores são emoções paralisadas...
.
(...)
.

terça-feira, 18 de março de 2008

Saudade - Gilka Machado



De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?

De quem é esta saudade,

de quem?

Aquelas mãos só carícias,

Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...

E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...

De quem é esta saudade

que sinto quando me vejo?


.

domingo, 2 de março de 2008

Esboço - Gilka Machado




Teus lábios inquietos


pelo meu corpo


acendiam astros...


e no corpo da mata


os pirilampos


de quando em quando,


insinuavam


fosforecentes carícias...


e o corpo do silêncio estremecia,


chocalhava,com os guizos


do cri-cri osculante


dos grilos que imitavam


a música de tua boca...


e no corpo da noite


as estrelas cantavam


com a voz trêmula e rútila


de teus beijos...


.