segunda-feira, 31 de março de 2008

Meus Rabiscos ...


Compartilhar - Renata Christina


O amor não é feito apenas de bons momentos e por isso não há como vivê-lo plenamente
se não houver compartilha. Um deve buscar no outro apoio e refúgio nas horas difíceis. Viver enclausurado no silêncio não faz parte da lealdade tão comum na vida a dois.
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sábado, 29 de março de 2008

Por Ana Cristina Cesar


Acreditei que se amasse de novo

Esqueceria outros

Pelo menos três ou quatro rostos que amei

Num delírio de arquivística

Organizei a memória em alfabetos

Como quem conta carneiros e amansa

No entanto flanco aberto não esqueço

E amo em ti os outros rostos.
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sexta-feira, 28 de março de 2008

O Momento do Amor - Guilherme de Almeida


O relógio de mogno, antigo, grave, enorme

dorme na angústia silenciosa dos imensos salões abandonados,

na alma dos Gobelins,

na vida misteriosa dos espelhos fanados...

Dorme parado e marca uma hora do passado,

uma hora velha,

uma hora de outrora...

E lembra-se da mão que abrira,

um dia, uma arca de pau santo, e tirara a peruca,

os pantufos e o vestido de tufos,

para o minuete,

sobre a volúpia do tapete...

E recorda-se então da marquesinha empoada,

afogada em cetins, espartilhada:

uma estatueta de faiança...

E do cravo de Holanda

que rompera ao compasso de uma dança,

que era um sonho de sons na tarde cor de cera...

E do galante fidalgo que, apoiado ao bastão de porcelana,

num passo airoso de galgo, leve como uma renda valenciana,

tomara docemente a mão medrosa e pura da Marquesinha

toda século XVIII e numa velha mesura,

muito cortez e algum tanto de afoito,

como se todos os sentidos aflorassem-lhe a boca,

num momento, beijou-lhe a boca, num momento,

beijou-lhe os lábios distraídos, num beijo esplêndido e violento!

O relógio viu tudo...

E, no velho silêncio de veludo

que a música rascante desse beijo bruscamente

eriçou, tremeu, ciumento e mudo, a frente do cortejo das horas...

e parou! Parou... E agora, imóvel mas radiante,

vive marcando com saudade o instante desse beijo, a

quele instante que ficou sendo uma serena eternidade...

Há corações que param no passado...

No seu silêncio sagrado

Eles repetem agora um silêncio de outrora...

É o silêncio que existe na furtiva,

na saudosa atitude da boca que se entrega,

ou que se esquiva da mão que diz adeus

ou que lança uma flor...

Porque há uma eternidade,

há um céu que não ilude no momento do amor!

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quinta-feira, 27 de março de 2008

Horas Vivas - Machado de Assis


NOITE; abrem-se as flores.

Que esplendores!

Cíntia sonha amores

Pelo céu.

Tênues as neblinas

Às campinas

Descem das colinas

Como um véu.

Mãos em mãos travadas

Animadas,

Vão aquelas fadas

Pelo ar

Soltos os cabelos,

Em novelos

Puros, louros, belos

A voar.

"Homem, nos teus dias

Que agonias

Sonhos, utopias,
Ambições;

Vivas e fagueiras,

As primeiras

Como as derradeiras Ilusões!

Quantas, quantas vidas

Vão perdidas,

Pombas malferidas

Pelo mal!

Anos após anos,

Tão insanos

Vêm os desenganos

Afinal.

Dorme: se os pesares

Repousares.

Vês? —por estes ares

Vamos rir;

Mortas, não; festivas,

E lascivas,

Somos—horas vivas

De dormir. —"

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quarta-feira, 26 de março de 2008

Amor no Éter - Adélia Prado


Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam: como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar entre meio-dia e duas horas da tarde.

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terça-feira, 25 de março de 2008

Frémito do Meu Corpo - Florbela Espanca


Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,
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Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!
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E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que me não amas...
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E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...

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segunda-feira, 24 de março de 2008

Emotividade da Cor - Gilka Machado


Sete cores — sete notas erradias,


sete notas da música do olhar,


sete notas de etéreas melodias,


de sons encantadores


que se compõem entre si,


formando outras tantas cores,


do cinzento que cisma ao jade que sorri.
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Há momentos


em que a cor nos modifica os sentimentos,


ora fazendo bem, ora fazendo mal;


em tons calmos ou violentos,


a cor é sempre comunicativa,


amortece, reaviva,tal a sua expressão emocional.
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Lançai olhares investigadores


para a mancha dos poentes:


há cores que são ecos de outras cores,


cores sem vibrações, cores esfalecentes,


melodias que o olhar somente escuta,


na quietude absoluta,


ao Sol se pôr...


Quem há que inda não tenha percebido


o subjetivo ruídoda harmonia da cor?
.
(...)
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— A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar.


Cor é soluço, cor é gargalhada,


cor é lamento, é suspiro,


e grito de alma desesperada!


Muitas vezes a cor ao som prefiro


porque a minha emoção é igual à sua:


— parada, estatelada


dizendo tudo, sem que diga nada,


no prazer ou na dor.
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Olhar a cor


é ouvi-la,


numa expressão tranquila,falar de todas as sensações


caladas, dos corações;


no entanto, a cor tem brados,


mas brados estrangulados,


mágoas contidas,


mudo querer,


ânsia, fervor, emotividade


de desconhecidas


vidas,


que se ficaram na vontade,


que não conseguiram ser...
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Cores são vagas, sugestivas toadas...


Cores são emoções paralisadas...
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(...)
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