quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Coração Polar - Manuel Alegre


Não sei de que cor são os navios

quando naufragam no meio dos teus braços

sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar

e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial

a tua promessa nos mastros de todos os veleiros

a ilha perfumada das tuas pernas

o teu ventre de conchas e corais

a gruta onde me esperas

com teus lábios de espuma e de salsugem

os teus naufrágios

e a grande equação do vento e da viagem

onde o acaso floresce com seus espelhos

seus indícios de rosa e descoberta.

Não sei de que cor é essa linha

onde se cruza a lua e a mastreação

mas sei que em cada rua há uma esquina

uma abertura entre a rotina e a maravilha.

há uma hora de fogo para o azul

a hora em que te encontro e não te encontro

há um ângulo ao contrário

uma geometria mágica onde tudo pode ser possível

há um mar imaginário aberto em cada página

não me venham dizer que nunca mais

as rotas nascem do desejo

e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos

quero o teu nome escrito nas marés

nesta cidade onde no sítio mais absurdo

num sentido proibido ou num semáforo

todos os poentes me dizem quem tu és.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Do Amoroso Esquecimento - Mário Quintana


Eu, agora, - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?
.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Criação - Olavo Bilac


Há no amor um momento de grandeza,

que é de inconsciência e de êxtase bendito:

os dois corpos são toda a Natureza,

as duas almas são todo o Infinito.

É um mistério de força e de surpresa!

Estala o coração da terra aflito;

rasga-se em luz fecunda a esfera acesa,

e de todos os astros rompe um grito.

Deus transmite o seu hálito aos amantes:

cada beijo é sanção dos Sete Dias,

e a Gênese fulgura em cada abraço,

Porque, entre as duas bocas soluçantes,

rola todo o Universo, em harmonias

e em florificações, enchendo o espaço!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

A Borralheira - Luís Guimarães Júnior


Meigos pés, pequeninos, delicados,

Como um duplo lilás, se os beija-flores

Vos descobrissem entre as outras flores,

Que seria de vós, pés adorados!
.
Como dois gêmeos silfos animados,

Vi-vos ontem pairar entre os fulgares

Do baile, ariscos, brancos, tentadores,

Mas, ai de mim! como os mais pés, calçados.

Calçados como os mais! que desacato!

Disse eu... Vou já talhar-lhes um sapato

Leve, ideal, fantástico, secreto...
.
Ei-lo. Resta saber, anjo faceiro,

Se acertou na medida o sapateiro:

Mimosos pés, calçai este soneto.

Do livro: "Antologia Nacional",

Livraria Freitas Bastos, 1963, RJ

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Eu e Ela - Cesário Verde


Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más idéias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distração,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiros,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou pagãos, vida à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavalheiro de Flaublas...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Ó tranças, de que Amor prisão me tece - Manuel du Bocage


Ó tranças, de que Amor prisão me tece,

Ó mãos de neve, que regeis meu fado!

Ó tesouro! Ó mistério! Ó par sagrado,

Onde o menino alígero adormece.

.

Ó ledos olhos azuis, cuja luz parece

Tênue raio de sol! Ó gesto amado,

De rosas e açucenas semeado

Por quem morrera esta alma, se pudesse!

.

Ó lábios, cujo riso a paz me tira,

E por cujos dulcíssimos favores

Talvez o próprio Júpiter suspira!

.

Ó perfeições! Ó dons encantadores!

De quem sois?... Sois de Vênus? - É mentira;

Sois de Marília, sois de meus amores.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Meus Rabiscos ...


Hoje minha vida não existe sem você...

.

Sou barco sem oceano para navegar

Sou caneta sem tinta para grafar

Sou estrada sem destino para chegar

Sou sonho sem recordação para lembrar

Sou corpo sem alma para encantar

Sou flor sem aroma para perfumar

Sou moeda sem valor para comprar

Sou deserto sem oásis para mirar

Sou céu sem as estrelas para cintilar

Sou um robô sem coração para amar...