quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Os Versos que Te Fiz - Florbela Espanca


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Por Nélson Rodrigues


“ Se eu pudesse - se os deuses permitissem –

teria assistido hoje ao seu despertar.

E, então, teria feito uma festa

de luz, de cor, de aroma.

Eu transportaria para tua alcova

toda a vibração musical da aurora,

todo o estremecimento solar.

E teria enfeitado os teus cabelos

com o mais lúcido e macio dos raios de luz;

e teria espargido sobre os teus ombros

o perfume mais suave da manhã;

e teria prendido no teu riso a pétala mais diáfana.

E, quando te levantasse,

eu faria com que pisasse rosas frescas e voluptuosas;

e assim teus pés teriam como que sandálias de perfume."

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Amor - Khalil Gibran



"Quando o amor acenar,

siga-o ainda que por caminhos ásperos e íngremes.

E quando suas asas o envolverem,

renda-se a ele ainda que a lâmina escondida
.
sob suas asas possa feri-lo.

E quando ele falar a você, acredite no que ele diz,

ainda que sua voz possa destroçar seus sonhos,

assim como o vento norte devasta o jardim.

Pois, se o amor o coroa, ele também o crucifica.

Se o ajuda a crescer, também o diminui.

Se o faz subir às alturas e acaricia seus ramos
.
mais tenros que tremem ao sol,

também o faz descer às raízes e abala a sua ligação com a terra.

Como os feixes de trigo, ele o mantém íntegro.

Debulha-o até deixá-lo nu.

Transforma-o, livrando-o de sua palha.

Tritura-o, até torná-lo branco.

Amassa-o, até deixá-lo macio;

e então submete ao fogo para que se transforme

em pão no banquete sagrado de Deus.

Todas essas coisas pode o amor fazer para que você

conheça os segredos do seu coração,

e com esse conhecimento se torne
.
um fragmento do coração da Vida."

domingo, 6 de janeiro de 2008

Mário Lago


Gosto e preciso de ti.

Mas, quero logo explicar:

não gosto porque preciso.

Preciso sim, por gostar.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Espero - Raul David



Por ti espero
desde que partiste
e aguardo o teu recado
em cada pessoa que chega;
Olho para os caminhos
todas as manhãs
na esperança de nos encontrarmos.
O cacimbo passou.
Nova folhagem cobrirá
daqui a pouco
a floresta
e tu não vens.
Depois
serão as chuvas...
De tanto te esperar
já sonho que chegaste.
Desperto ao latir dos cães
julgando ter chegado
quem vem bater-me à porta.
Esta esperança vã
é um tormento que em mim cresce
dia a dia.
.
.

Ar de Noturno - Federico García Lorca



Tenho muito medo

das folhas mortas,

medo dos prados

cheios de orvalho.

eu vou dormir;

se não me despertas,

deixarei a teu lado meu coração frio.

.
O que é isso que soa

bem longe ? Amor.

O vento nas vidraças,

amor meu !

.
Pus em ti colares

com gemas de aurora.

Por que me abandonas

neste caminho ?

Se vais muito longe,

meu pássaro chora

e a verde vinha

não dará seu vinho.

.
O que é isso que soa

bem longe ?

Amor. O vento nas vidraças,

amor meu !

.
Nunca saberás,

esfinge de neve,

o muito que eu

haveria de te querer

essas madrugadas

quando chove

e no ramo seco

se desfaz o ninho.

.
O que é isso que soa

bem longe ? Amor.

O vento nas vidraças,

amor meu !
.

( tradução: William Agel de Melo )

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Acalentando Sonhos - Rita Camargo Caldas


Enquanto houver estrelas

Enquanto houver luar

Embalados nas asas da poesia

Podemos sonhar...

Embarcamos neste sonho

Navegando com ilusão

Grandes vagas nos assombram

Arrastados pela correnteza

O intrépido vento a sibilar

O raivoso trovejar, lampeja

Trazendo a fria chuva a fustigar

.

A tempestade findou...

O mar serenou...

Céu azul, mar anil...

Alegres gaivotas em revoadas

A brisa leve exala um perfume

Com suave fragrância

De primavera

De flores e de amores

.

Aportamos em ancoradouro seguro

A vida com esperança

Desabrocha em nós...

Em cada flor

Em cada pássaro

Em cada amor