terça-feira, 6 de abril de 2010
Amar - Carlos Drummond de Andrade
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Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?
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Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
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Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
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Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
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(State Fair,
1945),
Carlos Drummond de Andrade,
Corações Enamorados
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
O lenço dela - Manuel Antônio Álvares de Azevedo
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Quando, a primeira vez, da minha terra
Deixei as noites de amoroso encanto,
A minha doce amante suspirando
Volveu-me os olhos úmidos de pranto.
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Um romance cantou de despedida,
Mas a saudade amortecia o canto!
Lágrimas enxugou nos olhos belos...
E deu-me o lenço que molhava o pranto.
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Quantos anos, contudo, já passaram!
Não olvido porém amor tão santo!
Guardo ainda num cofre perfumado
O lenço dela que molhava o pranto...
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Nunca mais a encontrei na minha vida,
Eu contudo, meu Deus, amava-a tanto!
Oh! quando eu morra estendam no meu rosto
O lenço que eu banhei também de pranto.
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(Pane,
1953),
Amore e Fantasia,
Manuel Antônio Álvares de Azevedo,
Pão amor e fantasia
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Amor de ostra - Affonso Romano de Sant'Anna
Nunca soube como as ostras amam.
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Sei que elas tem um jeito suave de estremecer
diante da vida e da morte.
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Tens um jeito de acomodar teu corpo ao meu
como na concha.
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Eu não sabia como as ostras amam
até que duas pérolas brotaram de teus olhos
no mar de cama.
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(Madame de...,
1953),
Affonso Romano de Sant'Anna,
Desejos Proibidos
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Amor de fixação - Manuel Alegre
"A experiência é madre das coisas e por ela soubemos radicalmente
a verdade". (Duarte Pacheco Pereira, "Esmeraldo")
Há um caminho marítimo no meu gostar de ti.
Há um porto por achar no verbo amar
há um demandar um longe que é aqui.
E o meu gostar de ti é este mar.
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Há um Duarte Pacheco em eu gostar
de ti. Há um saber pela experiência
o que em muitos é só um efabular.
Que de naugrágios é feita esta ciência
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que é eu gostar de ti como um buscar
as índias que afinal eram aqui.
Ai terras de Aquém-Mar (a-quem-amar)
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naus a voltar no meu gostar de ti:
levai-me ao velho pinho do meu lar
eu o vi longe e nele me perdi.
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(Fools Rush In,
1997),
E agora,
Manuel Alegre,
meu amor?
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Poema quase persa - Marina Colasanti
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Vem, amado,
segura minhas ancas nas tuas mãos
enquanto as minhas
domam teus joelhos.
Vem,
abre na minha testa
uma estrada de estrelas
e como um sol nascente de verão
aquece
folha a folha
os meus rosais.
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(Bienvenue chez les Ch'tis,
2008),
A Riviera não é aqui,
Marina Colasanti
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Arrependimento - Olegário Mariano
Deste amor torturado e sem ventura
Resta-me o alívio do arrependimento.
O pouco que me deste de ternura
Não vale o que te dei de encantamento.
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Abri para o teu sonho o firmamento,
Semeei de estrelas tua noite escura.
Dei-te alma, exaltação e sentimento.
Fiz de um bloco de pedra uma criatura.
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Hoje, ambos à mercê de sorte avessa,
Se para te esquecer luto e me esforço,
Manda-me o coração que não te esqueça.
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Padecemos idêntico suplício:
Tu - corroída de pena e de remorso,
Eu - com vergonha do meu sacrifício.
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(Abrazos Rotos,
2009),
Abraços Partidos,
Los,
Olegário Mariano
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Fanatismo- Florbela Espanca
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Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
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Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
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“Tudo no mundo é frágil, tudo passa...”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
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E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...”
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(Thomas Kinkade's Christmas Cottage,
2008),
A luz da cidade,
Florbela Espanca
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Pedido - Roseana Murray
me deixa escrever paixão
ao teu redor
tecer a palavra como quem
enchesse o oco de uma fruta
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tudo será feito em silêncio
um vento quase de nada trocará nossos olhos
uma água macia forrará nossos gestos
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me deixa escrever teu nome
me deixa te escrever
só doerá um pouco
quando encostar minha alma na tua
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(Funny People,
2009),
Gente Engraçada,
Roseana Murray
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
O nosso amor - Vinícus de Moraes
Vai ser assim
Eu pra você
Você pra mim
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Tristeza
Eu não quero nunca mais
Vou fazer você feliz
Vou querer viver em paz
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O nosso amor
Vai ser assim
Eu pra você
Você pra mim
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terça-feira, 24 de novembro de 2009
Alvarenga Peixoto
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Eu vi a linda Jônia e, namorado,
fiz logo voto eterno de querê-la;
mas vi depois a Nise, e é tão bela,
que merece igualmente o meu cuidado.
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A qual escolherei, se, neste estado,
eu não sei distinguir esta daquela?
Se Nise agora vir, morro por ela,
se Jônia vir aqui, vivo abrasado.
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Mas ah! que esta me despreza, amante,
pois sabe que estou preso em outros braços,
e aquela me não quer, por inconstante.
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Vem, Cupido, soltar-me destes laços:
ou faze destes dois um só semblante,
ou divide o meu peito em dois pedaços!
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(Alvarenga Peixoto)
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(Addicted to Love,
1997),
A lente do amor,
Alvarenga Peixoto
Soneto XXV - Guilherme de Almeida
O nosso ninho, a nossa casa, aquela
nossa despretensiosa água-furtada,
tinha sempre gerânios na sacada
e cortinas de tule na janela.
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Dentro, rendas, cristais, flores... Em cada
canto, a mão da mulher amada e bela
punha um riso de graça. Tagarela,
teu cenário cantava à minha entrada.
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Cantava... E eu te entrevia, à luz incerta,
braços cruzados, muito branca, ao fundo,
no quadro claro da janela aberta.
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Vias-me. E então, num súbito tremor,
fechavas a janela para o mundo
e me abrias os braços para o amor!
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(Love Affair,
1994),
Guilherme de Almeida,
Love Affair - Segredos do Coração
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Soneto XXXVI - Cláudio Manuel da Costa

XXXVI
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Estes braços, Amor, com quanta glória
Foram trono feliz na formosura!
Mas este coração com que ternura
Hoje chora infeliz esta memória!
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Quanto vês, é troféu de uma vitória,
Que o destino em seu templo dependura:
De uma dor esta estampa é só figura,
Na fé oculta, no pesar notória.
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Saiba o mundo de teu funesto enredo;
Por que desde hoje um coração amante
De adorar teus altares tenha medo:
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Mas que empreendo, se ao passo, que constante
Vou a romper a fé do meu segredo,
Não há, quem acredite um delirante!
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(Love Happens,
2009),
Cláudio Manuel da Costa,
Love Happens
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Amor e vida - Raimundo Correia

Esconde-me a alma, no íntimo, oprimida,
Este amor infeliz, como se fora
Um crime aos olhos dessa, que ela adora,
Dessa, que crendo-o, crera-se ofendida.
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A crua e rija lâmina homicida
Do seu desdém vara-me o peito; embora,
Que o amor que cresce nele, e nele mora,
Só findará quando findar-me a vida!
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Ó meu amor! como num mar profundo,
Achaste em mim teu álgido, teu fundo,
Teu derradeiro, teu feral abrigo!
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E qual do rei de Tule a taça de ouro,
Ó meu sacro, ó meu único tesouro!
Ó meu amor! tu morrerás comigo!
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(How to Deal,
2003),
Meu novo amor,
Raimundo Correia
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Amor - Roseana Murray
Amor é "abra-te, sésamo",
palavra mais que magia,
mais que montanhas,
oceanos.
Amor é o céu inteiro,
são constelações se formando,
universos em expansão.
Amor é fogo sagrado,
é galáxia.
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(The Scarlet Letter,
1995),
A Letra Escarlate,
Roseana Murray
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Por Manuel Antônio Álvares de Azevedo ...
.Perdoa-me visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando!...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo a estação das flores!
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De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...
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Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...
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Sem que última esperança me conforte,
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
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(Álvares de Azevedo)
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(Music and Lyrics,
2007),
Letra e música,
Manuel Antônio Álvares de Azevedo,
soneto
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
O Verbo Amar - J. G. de Araújo Jorge
Te amei: era de longe que te olhava
e de longe me olhavas vagamente...
Ah, quanta coisa nesse tempo a gente sente,
que a alma da gente faz escrava.
Te amava: como inquieto adolescente,
tremendo ao te enlaçar, e te enlaçava
adivinhando esse mistério ardente
do mundo, em cada beijo que te dava.
Te amo: e ao te amar assim vou conjugando
os tempos todos desse amor, enquanto
segue a vida, vivendo, e eu, vou te amando...
Te amar: é mais que em verbo é a minha lei,
e é por ti que o repito no meu canto:
te amei, te amava, te amo e te amarei!
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(Poema de JG de Araujo Jorge
do livro -Bazar de Ritmos- 1935)
. e de longe me olhavas vagamente...
Ah, quanta coisa nesse tempo a gente sente,
que a alma da gente faz escrava.
Te amava: como inquieto adolescente,
tremendo ao te enlaçar, e te enlaçava
adivinhando esse mistério ardente
do mundo, em cada beijo que te dava.
Te amo: e ao te amar assim vou conjugando
os tempos todos desse amor, enquanto
segue a vida, vivendo, e eu, vou te amando...
Te amar: é mais que em verbo é a minha lei,
e é por ti que o repito no meu canto:
te amei, te amava, te amo e te amarei!
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(Poema de JG de Araujo Jorge
do livro -Bazar de Ritmos- 1935)
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(Meet Me in St. Louis,
1944),
Agora seremos felizes,
J. G. de Araújo Jorge
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
O mais-que-perfeito - Vinícus de Moraes

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(Melinda and Melinda,
2004),
Melinda e Melinda,
Vinícius de Moraes
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Súplica - Miguel Torga

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
.
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
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Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
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(Plus tard,
2008) Miguel Torga,
Mais Tarde Você Vai Entender
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Por Fagundes Varela ...

"Oh! diz-me que ainda posso
um dia de teus lábios beber o mel dos céus
que eu te direi, mulher dos meus amores
amar-te é ainda melhor do que ser Deus".
(Fagundes Varela)
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(Memoirs of a Geisha,
2005),
Fagundes Varela,
Memórias de uma gueixa
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Pelo telefone - Gilka Machado
de onde vens,
aonde irás;
amo-te pelo enigma pertinaz
que em ti me atrai e me intimida,
por essa música mendaz
de tua voz
que alvoroçou minha audição
e me vem desviando a vida
de seu destino de solidão.
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Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás...
Fala-me sempre,
mente mais;
não te posso exprimir o pavor que me invade,
as aflições que me consomem,
ao meditar na triste realidade
de que deve ser feita
essa tua alma de homem.
.
Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás,
audaz
desconhecido;
tua palavra mente ao meu ouvido,
mas não mente essa voz que me treslouca!
— Ela é o amor que me chama por tua boca,
num apelo tristonho,
de saudade;
é a exortação do sonho
à minha rara sensibilidade.
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Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás:
amo a ilusão que tua voz me traz
a falsidade em que procuro crer.
.
Fala-me sempre, mente mais,
Fala-me sempre, mente mais,
que de mim só mereces tanto apreço,
ó nebuloso, porque desconheço
as humanas misérias de teu ser!
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Mas nesta solidão a que me imponho,
quando quedo em silêncio
a te aguardar a voz,
como se torna teu enigma atroz,
que ânsia de estrangular este formoso sonho,
de transpor os espaços,
de bem te conhecer,
de me atirar depressa,
inteira,
nos teus braços,
de te possuir só para te esquecer!...
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(Love the Hard Way,
2001),
Amor ao Extremo,
Gilka Machado
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